Um dia de Domingos
13 Nov 2011Durante um ano trabalhei em uma emissora de TV. A diferença mais importante entre ser estagiária em uma grande emissora e em uma pequena emissora é que a primeira está preocupada com o Ibope, enquanto a segunda está preocupada com o conteúdo, mesmo que nem todo mundo visse o resultado. Por isso, em vez de servir cafezinho e carregar fitas (embora esta última também fosse tarefa recorrente de todo mundo), estagiário da TV Brasil colocava a mão na massa e tinha aula com os melhores profissionais. Aqueles que foram cunhados pela vida, e nem sempre pelas melhores universidades. Nem todos os nomes ficaram na minha memória, mas todas as fisionomias que marcaram e me provocam pelo menos um sorriso ao me lembrar daquele ano continuam na cabeça. E foi assim que eu não me lembrei de primeira de Gelson Domingos, cinegrafista da Band. Porque para mim ele era da TV Brasil. E às vezes era Domingues, às vezes era Gerson, às vezes era “aquele cara simpático que sempre passa aqui na salinha para cumprimentar a gente”, por puro descuido meu.
Gelson Domingos morreu com uma bala de fuzil no peito na Favela Antares, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em uma operação do Bope, no irônico dia de domingo. Além da coincidência do nome e da data, era um dia tão ensolarado quanto ele. A bala que atingiu o cara simpático que sempre aparecia na salinha da apuração para dar um “oi” e nem sempre recebia o tratamento adequado em meio a tantos telefones tocando, TVs ligadas, rádios e gritaria não foi encontrada, porque atravessou o colete e o seu corpo. Nenhuma novidade para quem já viu o tamanho de uma bala de fuzil.
Para quem não sabe, uma das peculiaridades do tráfico carioca em relação a outras regiões, como São Paulo, é que somente o Rio tem o fuzil, o que torna o tráfico daqui mais difícil de combater e mais insuportavelmente audacioso e desrespeitoso que os demais. O fuzil é uma afronta, uma arma de guerra contra a qual é difícil lutar. Coletes impróprios para o tiro de fuzil viram armas ainda maiores, já que vão para dentro do corpo do baleado, levados pela imensa bala em alta velocidade. O fuzil é um escárnio dos traficantes contra uma sociedade que ainda não conseguiu controlá-los.
Durante o domingo em que Gelson morreu, o meu Facebook se tornou um mar de preto, de luto, de lágrimas e de homenagens, já que mais de metade dos meus amigos eram jornalistas e conheciam Domingos do trabalho ou das ruas. Foi somente com essas demonstrações de carinho e das inúmeras imagens dele que circularam pela internet que, aos poucos, eu fui me lembrando do cinegrafista que me acompanhava nas entrevistas de rua, chamadas “povo-fala”, uma das poucas ocasiões em que o estagiário podia trabalhar fora da redação. Ele que me empurrava para falar com as pessoas quando eu tinha vergonha e que inventava mil apelidos para a Carolzinha, que era, senão a mais nova, uma das mais novas da redação naquele ano.
Domingos não foi o único que marcou algum momento do meu 2009 naquela emissora, que contribuiu tanto para a imagem que eu tenho hoje em dia do jornalismo, e nem foi o único a perder a vida em serviço, mesmo fazendo o que amava. Mas naquele domingo, foi ele que levantou a questão entre todos os colegas de profissão: “Vale o risco?”. Foi unanimidade que não. Não vale o risco de subir favela com coletes à prova de guerras de mamona. Não vale receber salários absurdamente baixos para viver como policiais sem o equipamento e treinamento do Bope. Não vale atrapalhar o trabalho desses mesmos policiais, que acabam fazendo papel de babás.
Por outro lado, Gelson ia sempre com o mesmo sorriso, porque ele vibrava em ver a matéria no ar. Ele vibrava com as boas imagens, os bandidos presos, o jornal pronto. Afinal, o problema está em deixar que o jornalista suba a favela ou em se admitir um poder paralelo que impeça o direito de ir e vir de qualquer cidadão? Acaba-se com o tráfico ou com o repórter?
O jornalista Ricardo Boechat, da mesma empresa pela qual Gelson cobria aquela reportagem, disse que o cinegrafista morreu de bala perdida, que aquele tiro de fuzil não teria sido destinado a ninguém. Peço desculpas ao experiente Boechat, mas meu colega morreu de bala achada. O fuzil foi apontado para uma pessoa, a arma foi disparada e o tiro encontrou o peito de uma pessoa que estava viva, e depois não estava mais. Não houve nada perdido além da vida de um grande repórter cinematográfico. Vide as últimas palavras de Gelson, quando avisou a polícia de que os traficantes estariam vendo eles.
As últimas imagens da câmera que foi largada no chão foram repetidas à exaustão pela imprensa brasileira, que, de tão preocupada em fazer jus à morte do colega, acabou derrapando no sensacionalismo. De emocionante ficou o zoom final, já com a câmera tombada – os últimos esforços de Gelson Domingos da Silva em busca da imagem perfeita: seu assassino.
Boechat tomou as dores da empresa ao chamar aquela enorme bala de perdida. E a Band agora merece ao menos repensar sua posição. Não são todas as emissoras que sobem favela. Muitos jornalistas esperam o fim da operação a mando da própria chefia de reportagem, uma posição que cresceu muito com a morte do jornalista Tim Lopes. E quem sobe favela com colete à prova de bala de brinquedo sabe que aquilo faz figuração, tanto quanto o crucifixo que possam carregar pendurado no peito.
Gelson era experiente e sabia o que estava fazendo. Talvez uma das maiores dores dos jornalistas naquele dia, além da perda do grande amigo e profissional, era saber que, naquele domingo, poderia ter sido qualquer um.
Para uns, Domingos morreu em um domingo de sol fazendo o que amava. Para outros, Domingos morreu em uma operação policial com um tiro no peito, esperando 20 minutos por atendimento, vítima de uma guerra civil que tentava mostrar para a população carioca, cada vez mais cega e dormente. As duas alternativas estão corretas, mas, principalmente, Domingos morreu para que cada um se pergunte diariamente, antes de sair de casa: “Para você, vale o risco?”.
Publicado em 13.11.2011 em “O Debate”.