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Murphy abençoa 2010

Mar 02

Podem confessar, vocês bem que estavam morrendo de saudades das minhas reclamações e de Murphy me perseguindo loucamente… Sem problemas, isso acaba hoje! O que aconteceu foi que eu fiquei tempo de mais em casa, por isso, o cosmos não me ajuda, mas também não me atrapalha. Hoje eu vim para o Rio e fui agraciada com a ira de Murphy. Vamos lá:
No ônibus das 10h10, um homem sentou do meu lado (porém, felizmente, do outro lado do corredor) com uma mini bola de futebol dentro de uma sacola plástica. Ficou amassando, batendo, batucando a droga da sacola um tempão, e olha que o ônibus nem tinha saído. Eu estava tentando ler, por isso olhei para ele e lancei aquele “tsk”, que não diz nada mais do que “você está me incomodando”, quando deveria significar “você não se toca que é extremamente inconveniente e que todos no ônibus querem você o mais longe possível?”. Quando ele percebeu que tinha atingido alguém, aumentou ainda mais as batucadas, dessa vez olhando para mim e sorrindo. Coloquei o meu fone de ouvido bem alto e fingi que conseguia ler com aquele barulho ensurdecedor da minha própria música. De vez em quando, durante a viagem, ele lembrava que estava tentando me atazanar e voltava a batucar olhando para mim e mandando beijos.
Enfim, cheguei ao Rio às 13h e fui direto para casa. A faxina que eu tinha agendado não tinha sido feita, e o meu quarto parecia saído da Família Addams. Fiquei lá até umas 14h, quando resolvi ir para o shopping almoçar e esperar dar a hora da prova na Aliança Francesa, que era às 17h. Coloquei os meus dois celulares no bolso e saí de casa feliz, dando graças ao friozinho que fazia a cidade parecer até civilizada.
Saltei no Praia Shopping, atravessei a rua, subi as escadas e me encaminhei para a minha saladinha querida do Emporium Pax. Resolvi ver que horas eram no meu celular lindão, que eu comprei há umas duas semanas, para ver se faltava muito tempo para a prova. E cadê a merda do celular? Roda a bolsa, sacode a bolsa, tira um bilhão de coisas da bolsa e nada! Nada! Liga pra ele (sei lá para quê). Ninguém atende (dã).
Corri as escadas de volta para pegar outro ônibus de volta para casa, com a esperança de que ele estaria em cima da minha cama, tocando feliz (mesmo que eu me lembrasse muito bem de ter colocado ele DENTRO da bolsa e o velho FORA da bolsa, mas tudo bem…). Pedi para São Longuinho e continuei ligando para ele com a esperança de que alguém tivesse encontrado e atendesse. Nada… A droga do ônibus nunca foi tão lerda!
Chegando na esquina de casa alguém atende! É uma mulher que fica perguntando quem eu sou (eu que queria saber quem ELA era, com o MEU celular!). Enfim, para a minha sorte, ela estava disposta a devolver o celular, mas estava no Centro, e morava na Lapa – você queria que a pessoa quisesse devolver E não fosse contramão? Pedir demais né? Anotei o número dela na minha mão com o ônibus andando, fiquei com aquela mão de açougueiro que me perseguiu o dia todo, e ainda falei bem alto, pro resto do ônibus ficar com pena de mim e cuidar melhor dos próprios celulares.
Saltei em casa, liguei para Macaé e decidi pegar um taxi e me encontrar com a mulher no Centro mesmo, correndo. Peguei o primeiro taxi que eu vi na rua, sem saber se era de companhia ou não, e me sujeitando a segunda merda do dia, que, felizmente, não aconteceu. No caminho, furei o dedo com o guarda-chuva, que parecia ter sido bem superficial, se eu não tivesse visto logo em seguida que tanto a minha bolsa quanto a minha calça estavam cheios de manchas de sangue (sangue mancha, né? Ou não?)
Todos os carros do mundo fecharam o meu caminho, todos os sinais do mundo estavam fechados naquela hora e o motorista escolheu o maior caminho de todos, me tomando uns 40 minutos (e 23 reais) para chegar à Rua da Assembléia, em frente ao número 34, no restaurante Delírio Tropical, onde estava a minha salvadora – que, até então, poderia ser mulher de bandido, com cinco caras armados me esperando para roubar mais coisa.
O taxista – depois que eu abri o coração para ele, coisa que eu NUNCA faço, muito menos com taxistas – percebeu que poderia ser perigoso e montou um plano de ataque, em que ele ficaria esperando, estacionaria em um lugar estratégico, blá, blá, blá… Eu só queria o meu celular de volta, que, por sinal, eu ainda não tinha terminado de pagar.
Encontrei a tal moça comendo sopa no Delírio Tropical, agradeci um bilhão de vezes e voltei pro taxi, para enfrentar mais engarrafamento até a Aliança Francesa de Botafogo.
Claro, parei no shopping e passei na Copenhagen, primeiro porque ninguém é de ferro; segundo por que, mais do que nunca, eu merecia; e terceiro porque eu não tinha comido nada desde um saco batatas dentro do ônibus, às 10h30.
Fui fazer a prova sem a menor cabeça para ela, respondi meia dúzia de baboseira, uns cinco “okay”s, provavelmente uns dois “Yes” e fiquei em um nível me(R)diano, abaixo do que eu JÁ TINHA FEITO no intercâmbio de 2008. Depois de receber o meu resultado tosco, percebi que em algum lugar desse caminho eu torci o pé novamente (novamente porque um dia desses, em Macaé, eu acordei de pé torcido e não consegui pisar durante um dia). Entrei na sala de francês meia hora depois que a aula tinha começado (já que eu tinha acabado de ficar sabendo o meu horário) e fui recepcionada “calorosamente” por um professor que esperava que eu explicasse a minha presença duas semanas depois do início das aulas, atrasada e sem o livro. Acho que eu falei algum “okay” ou “yes”, não lembro bem, já que eu ainda estava alterada.
Almocei às 20h, depois de escrever o texto da coluna que tinha que ser entregue amanha. Foi uma pizza pedida pelo telefone na Domino’s, extremamente overpriced (já é caro normalmente, mas pelo telefone é impraticável) só para não precisar sair de casa de novo. Vou me enfiar debaixo do travesseiro e esperar esse dia passar. Olha que a semana ainda nem terminou, e já estou prevendo altas emoções até o final dela! Ah sim, eu dei os vinte pulinhos prometidos para São Longuinho (prometeu, tem que pular, e ele nunca falha!).
Oi, Murphy, tudo bom? Nem senti sua falta!

Podem confessar, vocês bem que estavam morrendo de saudades das minhas reclamações e de Murphy me perseguindo loucamente… Sem problemas, isso acaba hoje! O que aconteceu foi que eu fiquei tempo de mais em casa, por isso o cosmos não me ajuda, mas também não me atrapalha. Hoje eu vim para o Rio e fui agraciada com a ira de Murphy. Vamos lá:

No ônibus das 10h10, um homem sentou do meu lado (porém, felizmente, do outro lado do corredor) com uma mini bola de futebol dentro de uma sacola plástica. Ficou amassando, batendo, batucando a droga da sacola um tempão, e olha que o ônibus nem tinha saído. Eu estava tentando ler, por isso olhei para ele e lancei aquele “tsk”, que não diz nada mais do que “você está me incomodando”, quando deveria significar “você não se toca que é extremamente inconveniente e que todos no ônibus querem você o mais longe possível?”. Quando ele percebeu que tinha atingido alguém, aumentou ainda mais as batucadas, dessa vez olhando para mim e sorrindo. Coloquei o meu fone de ouvido bem alto e fingi que conseguia ler com aquele barulho ensurdecedor da minha própria música. De vez em quando, durante a viagem, ele lembrava que estava tentando me atazanar e voltava a batucar olhando para mim e mandando beijos.

Enfim, cheguei ao Rio às 13h e fui direto para casa. A faxina que eu tinha agendado não tinha sido feita, e o meu quarto parecia saído da Família Addams. Fiquei lá até umas 14h, quando resolvi ir para o shopping almoçar e esperar dar a hora da prova na Aliança Francesa, que era às 17h. Coloquei os meus dois celulares no bolso e saí de casa feliz, dando graças ao friozinho que fazia a cidade parecer até civilizada.

Saltei no Praia Shopping, atravessei a rua, subi as escadas e me encaminhei para a minha saladinha querida do Emporium Pax. Resolvi ver que horas eram no meu celular lindão, que eu comprei há umas duas semanas, para ver se faltava muito tempo para a prova. E cadê a merda do celular? Roda a bolsa, sacode a bolsa, tira um bilhão de coisas da bolsa e nada! Nada! Liga pra ele (sei lá para quê). Ninguém atende (dã).

Corri as escadas de volta para pegar outro ônibus de volta para casa, com a esperança de que ele estaria em cima da minha cama, tocando feliz (mesmo que eu me lembrasse muito bem de ter colocado ele DENTRO da bolsa e o velho FORA da bolsa, mas tudo bem…). Pedi para São Longuinho e continuei ligando para ele com a esperança de que alguém tivesse encontrado e atendesse. Nada… A droga do ônibus nunca foi tão lerda!

Chegando na esquina de casa alguém atende! É uma mulher que fica perguntando quem eu sou (eu que queria saber quem ELA era, com o MEU celular!). Enfim, para a minha sorte, ela estava disposta a devolver o celular, mas estava no Centro, e morava na Lapa – você queria que a pessoa quisesse devolver E não fosse contramão? Pedir demais né? Anotei o número dela na minha mão com o ônibus andando, fiquei com aquela mão de açougueiro que me perseguiu o dia todo, e ainda falei bem alto, pro resto do ônibus ficar com pena de mim e cuidar melhor dos próprios celulares.

Saltei em casa, liguei para Macaé e decidi pegar um taxi e me encontrar com a mulher no Centro mesmo, correndo. Peguei o primeiro taxi que eu vi na rua, sem saber se era de companhia ou não, e me sujeitando a segunda merda do dia, que, felizmente, não aconteceu. No caminho, furei o dedo com o guarda-chuva, que parecia ter sido bem superficial, se eu não tivesse visto logo em seguida que tanto a minha bolsa quanto a minha calça estavam cheias de manchas de sangue (sangue mancha, né? Ou não?)

Todos os carros do mundo fecharam o meu caminho, todos os sinais do mundo estavam fechados naquela hora e o motorista escolheu o maior caminho de todos, me tomando uns 40 minutos (e 23 reais) para chegar à Rua da Assembléia, em frente ao número 34, no restaurante Delírio Tropical, onde estava a minha salvadora – que, até então, poderia ser mulher de bandido, com cinco caras armados me esperando para roubar mais coisa.

O taxista – depois que eu abri o coração para ele, coisa que eu NUNCA faço, muito menos com taxistas – percebeu que poderia ser perigoso e montou um plano de ataque, em que ele ficaria esperando, estacionaria em um lugar estratégico, blá, blá, blá… Eu só queria o meu celular de volta, que, por sinal, eu ainda não tinha terminado de pagar.

Encontrei a tal moça comendo sopa no Delírio Tropical, agradeci um bilhão de vezes e voltei pro taxi, para enfrentar mais engarrafamento até a Aliança Francesa de Botafogo.

Claro, parei no shopping e passei na Copenhagen, primeiro porque ninguém é de ferro; segundo por que, mais do que nunca, eu merecia; e terceiro porque eu não tinha comido nada desde um saco batatas dentro do ônibus, às 10h30.

Fui fazer a prova sem a menor cabeça para ela, respondi meia dúzia de baboseira, uns cinco “okay”s, provavelmente uns dois “Yes” e fiquei em um nível me(R)diano, abaixo do que eu JÁ TINHA FEITO no intercâmbio de 2008. Depois de receber o meu resultado tosco, percebi que em algum lugar desse caminho eu torci o pé novamente (novamente porque um dia desses, em Macaé, eu acordei de pé torcido e não consegui pisar durante um dia). Entrei na sala de francês meia hora depois que a aula tinha começado (já que eu tinha acabado de ficar sabendo o meu horário) e fui recepcionada “calorosamente” por um professor que esperava que eu explicasse a minha presença duas semanas depois do início das aulas, atrasada e sem o livro. Acho que eu falei algum “okay” ou “yes”, não lembro bem, já que eu ainda estava alterada.

Almocei às 20h, depois de escrever o texto da coluna que tinha que ser entregue amanha. Foi uma pizza pedida pelo telefone na Domino’s, extremamente overpriced (já é caro normalmente, mas pelo telefone é impraticável) só para não precisar sair de casa de novo. Vou me enfiar debaixo do travesseiro e esperar esse dia passar. Olha que a semana ainda nem terminou, e já estou prevendo altas emoções até o final dela! Ah sim, eu dei os vinte pulinhos prometidos para São Longuinho (prometeu, tem que pular, e ele nunca falha!).

(Oi, Murphy, tudo bom? Bem vindo de volta, aproveita e comenta!)

Vida de leitor

Feb 28

Quem lê muito geralmente chega a um impasse na hora de escolher o próximo livro a ser lido. A vida é muito curta para ler todos, a leitura nunca é rápida o suficiente para isso e, se fosse, não haveria tempo suficiente para ruminar, sentir, sofrer, rir e chorar a cada página. Por isso, quando eu chego no final de um livro sem saber exatamente qual vai ser o próximo, já começo a sentir aquela angústia de “quantos dias eu vou perder não lendo nada”.

Confesso que um dia desses, tentando me livrar os livros que ocupam o nosso tempo sem dar em nada, procurei no Google uma lista dos 1001 autores do tipo “must read”. Copiei para o Word e comecei a marcar em amarelo o que eu já tinha lido. Ainda entremeio isso com alguns bestsellers, que eu nunca consigo me livrar, afinal, eu parto do princípio de que um milhão de pessoas não podem estar sempre erradas ou, no caso de Crepúsculos e febres afins, eu preciso no mínimo saber do que eles estão falando.

(Atenção, isso não inclui Big Bosta, nesse caso, um milhão de pessoas estão sim, se retardando juntas, estão errados, e você não precisa saber do que eles estão falando)

Na semana passada, fui passear no shopping para curtir o ar-condicionado (que coisa de pobre, né?) e fui parar na Saraiva. Passei a tarde toda lá dentro vendo quantos mil livros eu ia levar. Comecei a empilhar todos eles e, se tivesse carrinho de compras, acho que eu pegava um também. Depois de umas duas horas, escolhi um montão. Fui primeiro ver quanto ia dar a minha brincadeira naquelas máquinas geniais de passar o código de barras. Fui tirando um. Tirando outro.

E, com o tempo de vacas magras, a minha grande compra se resumiu a um mísero livro. Um! (Vida de escritor – Gay Talese) Ou seja, a minha agonia está controlada durante essa semana, e nada mais. Na semana que vem eu já preciso correr pro shopping de novo (aproveito o ar-condicionado mais uma vez, porque o meu apê é realmente quente) e aumentar o estoque… Triste fim para a minha lista de 1001 livros…

Ps.: Falando nisso, o que estava terminando já está no blog Histórias para Ler. Check it out!

Diga não ao boicote

Feb 06

O RAIZ DE GENGIBRE mudou de layout e está ainda mais lindão e rápido de carregar…

… e a dona dele vai ficar extremamente chateada se você parar de comentar por causa disso! Humpft.

Ao sol

Feb 05

Eu sou cega. Não acho que isso me defina como pessoa, me dê mais ou menos chances e nem seja uma informação de fato importante para me definir em uma suposta autobiografia. Apesar disso, se tratando de uma característica tão aparente, seria hipócrita não começar o meu perfil sem essa informação.
A cegueira é decorrente do glaucoma, que é decorrente da velhice, que é decorrente do nascimento. Foram fatos encadeados que não teriam acontecido se eu não tivesse nascido, por isso sou grata até mesmo ao glaucoma. Se tivesse que mudar alguma coisa, certamente seria a tal camada branca que invade os meus olhos como uma cortina, já que nem toda velha atinge a cegueira. Algumas ficam carecas, outras têm cabelo branco, outras desandam a comer doce e a reclamar da vida. Eu parei de enxergar.
A audição também não colabora mais como antes, mas as articulações também não andam as mil maravilhas, e com isso retomamos a conversa de que todas as doenças da velhice têm início com o nascimento, e este, apesar de não ter tido escolha, acho que não mudaria se pudesse.
Não tive filhos, por isso não espalhei os meus genes “glaucômicos”. Por outro lado, também não tive com quem dividir essa piadinha infame. O tempo simplesmente passou, entre passos, sons, ventos, sóis e brigas. Como passaria com ou sem filhos, com ou sem glaucoma, com ou sem trabalho.
É absurdo pensar em remoer o passado alguém que nunca fez muita coisa. Acaba que as memórias viram um jogo de “eu nunca”. Nunca fui estrela principal de um filme infantil, nunca salvei uma criança de um prédio em chamas, nunca me apresentei à rainha da inglaterra, nunca fui mencionada em uma disputa presidencial, nunca fui retratada em uma história em quadrinhos.
A vida, no entanto, parece ser boa e caridosa quando vejo as pessoas à minha volta que correm contra o tempo em seus carros e motos, capacetes e pressa, sapatos e calças, como se tivessem alguma coisa muito importante a fazer antes de envelhecer e morrer, como se alguma dessas coisas fosse durar muito mais do que as suas próprias vidas.
Prefiro aproveitar a minha como me convém: ainda sinto o sol me acordando de manhã, ainda sinto o vento da praia nos dias mais frios, ainda me divirto com as correrias alheias, me enrolo no cobertor, vigio a casa e, antes de dormir, a prece diária pede apenas que prolongue por mais um dia a minha vida de cão. “Que a ração amanhã tenha pedacinhos de carne, que a chuva não molhe o meu cobertor, que a visão volte um pouco para me lembrar da posição das paredes, que eu consiga enxergar a bola colorida dos filhos do vizinho que cai todo dia no quintal e me aproveite dela antes que seja devolvida, que eu ainda sinta o sol. Amém”.

Eu sou cega. Não acho que isso me defina como pessoa, me dê mais ou menos chances e nem seja uma informação de fato importante para me definir em uma suposta autobiografia. Apesar disso, se tratando de uma característica tão aparente, seria hipócrita não começar o meu perfil sem essa informação.

A cegueira é decorrente do glaucoma, que é decorrente da velhice, que é decorrente do nascimento. Foram fatos encadeados que não teriam acontecido se eu não tivesse nascido, por isso sou grata até mesmo ao glaucoma. Se tivesse que mudar alguma coisa, certamente seria a tal camada branca que invade os meus olhos como uma cortina, já que nem toda velha atinge a cegueira. Algumas ficam carecas, outras têm cabelo branco, outras desandam a comer doce e a reclamar da vida. Eu parei de enxergar.

A audição também não colabora mais como antes, mas as articulações também não andam as mil maravilhas, e com isso retomamos a conversa de que todas as doenças da velhice têm início com o nascimento, e este, apesar de não ter tido escolha, acho que não mudaria se pudesse.

Não tive filhos, por isso não espalhei os meus genes “glaucômicos”. Por outro lado, também não tive com quem dividir essa piadinha infame. O tempo simplesmente passou, entre passos, sons, ventos, sóis e brigas. Como passaria com ou sem filhos, com ou sem glaucoma, com ou sem trabalho.

É absurdo pensar em remoer o passado alguém que nunca fez muita coisa. Acaba que as memórias viram um jogo de “eu nunca”. Nunca fui estrela principal de um filme infantil, nunca salvei uma criança de um prédio em chamas, nunca me apresentei à rainha da inglaterra, nunca fui mencionada em uma disputa presidencial, nunca fui retratada em uma história em quadrinhos.

A vida, no entanto, parece ser boa e caridosa quando vejo as pessoas à minha volta que correm contra o tempo em seus carros e motos, capacetes e pressa, sapatos e calças, como se tivessem alguma coisa muito importante a fazer antes de envelhecer e morrer, como se alguma dessas coisas fosse durar muito mais do que as suas próprias vidas.

Prefiro aproveitar a minha como me convém: ainda sinto o sol me acordando de manhã, ainda sinto o vento da praia nos dias mais frios, ainda me divirto com as correrias alheias, me enrolo no cobertor, vigio a casa e, antes de dormir, a prece diária pede apenas que prolongue por mais um dia a minha vida de cão. “Que a ração amanhã tenha pedacinhos de carne, que a chuva não molhe o meu cobertor, que a visão volte um pouco para me lembrar da posição das paredes, que eu consiga enxergar a bola colorida dos filhos do vizinho que cai todo dia no quintal e me aproveite dela antes que seja devolvida, que eu ainda sinta o sol e a certeza que todos os cães ainda merecem o céu. Amém”.

Primeira reclamação do ano

Jan 11

Eu confesso: abandonei esse blog totalmente, sou uma má pessoa e matei muitas fadinhas nerds nos últimos meses. O motivo: coloquei a barriga no fogão e encontrei um tema que faz muito mais sucesso na blogosfera do que reclamações pessoais e muito mais sucesso do que eu imaginava, aliás. Enquanto aqui entram em média cinco pessoas por dia, a média no Raiz de Gengibre é de 35, mas já passou de 90 em dias legais, e isso não me dá muita vontade de reclamar (talvez dê na hora que eu resolver me pesar, depois dessa brincadeira toda.

Só uma coisa me tirou do sério esse mês, então, agora que já está tudo resolvido, lá vai:

Desde setembro, ou antes disso, eu vinha recebendo e-mails constantes da faculdade com atualizações dos alunos que estavam com documentação “ok”, e por isso se entende aqueles que não deviam documentos do Ensino Médio. Acho que eu entreguei todos no primeiro período. Aliás, tenho quase certeza, mas isso faz quatro anos e o mínimo que eu posso fazer é acreditar nesses e-mails, certo?

Errado. O meu nome estava lá, lindíssimo em todos os e-mails, até que no dia 4 de janeiro, dois dias antes da colação de grau eu tenho a vontade de dar uma ligadinha só para conferir se estava tudo ok mesmo. “Não, falta o certificado de conclusão do Ensino Médio”. “Como assim!?”. “É, você só pode colar grau com ele”.

Rodei a minha casa em Macaé toda. TODA! Nada da droga do certificado que eu jurava que já tinha sido entregue. Liguei pro Módulo (”escola para quem quer mais”) e eles me disseram que tinha lá. Liguei novamente antes de ir buscar e… “opa! aparentemente você já pegou o documento… não temos nenhum extra”! Ainda assim fui no Módulo e peguei uma xerox dele. A segunda via só ficaria pronta depois do carnaval, porque o Ministério da Educação (nosso amado MEC) estava de férias até lá, o que significaria colar grau em julho. JULHO!!

Me desesperei, peguei o primeiro ônibus pro Rio e rodei a casa toda lá também. Encontrei o maldito certificado e vivi feliz para sempre.

Ainda assim: para que mandar um raio de um e-mail durante o semestre inteiro se ele vai estar errado?! E como assim você avisa isso no dia 4 de janeiro?! Alguém aqui não sabe que o Brasil começa a funcionar depois do carnaval? (e alguém mais achou um absurdo o único funcionário do MEC em Macaé estar de férias na época em que a gente mais precisa dele?)

Tudo bem, agora deu tudo certo, eu já me afoguei em um balde de cookies para aliviar e ainda assim coube no meu vestido da formatura, que por sinal foi ó-ti-ma (isso significa: ainda não sinto os meus dedos dos pés).