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Psicografia

Jul 06

Todo escritor tem a sua síndrome da folha em branco em alguma parte da vida. Aquele momento em que ele olha para o papel, que olha de volta para ele, ambos sem expressão, sem sentimentos, lívidos, assustados com a possibilidade de nenhuma letra nunca mais pousar naquela folha sem vida. Pode ser um momento triste, com ares de funeral, ou desesperador, com ares de “o prazo está acabando”, apelidado carinhosamente de deadline, como se um sentimento tão devastador pudesse ter um nome tão bonito.

Ele pousou a caneta no papel e ensaiou algumas curvas, para ver se, como Chico Xavier, algo decidisse tomar forma por si só, transformando-se em um grande romance policial, um roteiro de novela das oito, um livro de quinhentas páginas com um final nada feliz, daqueles que seduzem até os críticos mais ferrenhos, sem clichês, sem moral da história, palavras que dançam durante páginas e mais páginas e terminam com um ponto final, deixando o leitor reticente até o próximo livro.

A curva pareceu-lhe um “C”. E não sabia dizer se tinha sido proposital, randômico ou se, como no jogo do copo virado, a letra tinha se materializado na sua frente como um sinal divino de qual letra deveria começar o romance que lhe daria o Nobel de Literatura e garantiria a sua vaga na Flip do ano que vem.

C. Podia ser a inicial do personagem principal, que mata o mocinho com uma faca em um plano mirabolante que nunca vem descoberto, transformando o assassino no bonzinho da história e confundindo a mente de quem se metia a ler aquela bagunça. Não. Deixou que a caneta escolhesse o próximo passo, catando uma a uma as palavras que conviesse, sem prestar atenção no que aparecesse estampado na página. Escreveu como uma poesia. Talvez a carreira estivesse nos versos e estrofes, e não nos capítulos e prosas. Podia suportar a dor de não ser um romancista famoso se isso significasse a reencarnação de Vinícius. O Brasil precisava de outro Vinícius e ele poderia se sacrificar em nome da arte.

As palavras apareceram aos poucos, enfileiradas, uma sobre a outra. Algo lhe dizia que aquilo precisava ser escrito. Não apenas para o mundo, mas que era importante para si mesmo, embora não lembrasse por que. Ele pensava nos prêmios, em quem escreveria a orelha do livro, a quem seria feita a dedicatória – curta, enigmática, que não apontava culpados, e aparentava mais elaborada que o próprio texto – e isso tudo o impediu de pensar no que estava fazendo. As mulheres têm a grande capacidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo, mas o péssimo hábito de prestar atenção nas duas coisas.

Foi quando resolveu deixar de lado por um momento os preparativos de sua nova vida para ver o que, de fato, suas mãos haviam feito por conta própria. Cerveja. Picanha. Tomate. Cebola. Pão de Alho. Alcatra. Sal grosso.

Triste fim de uma vida literária. O mundo perdia mais uma alma engrandecida pelo poder das palavras para o churrasco. A Flip desapareceu como um sonho. O prêmio Nobel ficou totalmente desinteressante. As orelhas do livro inexistente não ouviam nada mesmo. A desilusão durou exatamente cinco segundos, contados no relógio. Os homens têm a grande capacidade de curar as desilusões com uma ideia ainda melhor. Esta foi substituída por um sorriso e um frenesi. “É melhor me apressar. O mercado fecha ao meio dia.”

Comprinhas overseas

May 29

Quem acompanhou a minha saga de espera deve estar curiosa para saber o que raios eu comprei que demorou tanto para chegar e onde é esse lugar que demora tanto para entregar, por isso eu resolvi colocar a saga aqui. Serei imparcial (pela primeira vez nesse blog) já que eu ainda não tenho opinião formada sobre esse site.

Aliás, quem me conhece sabe que eu compro TUDO pela internet: livro, televisão, computador, presente… TUDO. Por isso, comprar maquiagem overseas era só mais um adendo. Ainda assim, eu só compro em lojas que eu conheço e fico extremamente preocupada quando demora para chegar.

Fiquei sabendo do Strawberry e comecei a caçar referências. Era absurdamente barato em comparação ao Brasil e o frete para a maioria dos produtos era grátis. Para completar, se a polícia cobrasse alguma taxa, eles prometiam reembolso. ALÉM DISSO, o frete era de 4 a 7 dias úteis. Alguma coisa TINHA que estar errado.

Pois é… Era o frete.

Acontece que, depois dos 4 dias, passaram 7 dias, 10 dias, e eu ficando nervosa. Até que eu percebi umas letrinhas pequenininhas no e-mail que eles me mandaram dizendo que para a América Latina, Oceania ou África o prazo de entrega era de até 14 dias úteis. Quatorze dias úteis é muita coisa, minha gente! Eu nem me lembrava mais o que tinha comprado! Na verdade demorou 16 dias úteis!

Ou seja: é barato, é original, é lindo e maravilhoso, mas demora uma eternidade! Tirem suas conclusões.

As comprinhas estão abaixo: um silicone/sei-la-o-que da Sebastian que a Tia Nandy pediu para completar o mínimo (a partir de um valor, na primeira compra, você ganha um brinde), o brinde (que era para ter sido dois batons, mas veio uma sombra – esse Vincent Longo) e o que eu pedi, esse kit Pretty in Paris da Bourjois, que vem com rímel preto, transparente, um kit com duas sombras e um gloss.

Protected: teste

May 27

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Malas de ônibus (parte I)

May 10

Normalmente, eu sou adepta da distribuição total e irrestrita da comunicação, tecnologia e do mundo digital. Acho que todo mundo tem o dever de aprender a usar um computador, todo mundo tem que aprender a escola o que um link, como fazer um blog e tudo mais. Ultimamente, no entanto, eu tenho visto que, sem uma aula de etiqueta, a tecnologia em mãos erradas pode provocar sérios danos psíquicos às pessoas normais.

O melhor exemplo é a banda larga e os satélites telefônicos. Quando eu comecei a faculdade, o caminho de três horas entre as minhas duas casas era repleto de pontos cegos de antenas de celular, além de um enorme ponto cego no meio do caminho. Essa era a deixa para dormir. Telefones tocando só eram ouvidos no começo da viagem (”Fulano, estou saindo de Macaé agora!”) ou no final (”Fulana, me busca na rodoviária, estou na ponte!”). Entre esses dois pontos: a mais profunda paz (exceto se alguma criança chata resolvesse cantar, falar ou chorar no meio do caminho).

Hoje, quase todas as operadoras conseguiram eliminar praticamente todos os pontos cegos entre Rio e Macaé, o que faz com que o caminho seja repleto de telefones tocando – isso porque a função “silencioso” não tem muito utilidade na mente brasileira.

Ontem eu voltei de Macaé com um sujeito que atendeu cinco ligações completamente inúteis no caminho, com uma voz extremamente alta e assistiu televisão (sem fones de ouvido, claro!) nos intervalos. Prevenida, eu tinha tapa-ouvidos, porque fones de ouvido não fazem muita diferença quando o mala está do seu lado. Mas pessoas inconvenientes tendem a não perceber a própria inconveciencia, de modo que entre um telefonema e outro ele me chamou, me viu tirar a droga do tapa ouvidos e me ofereceu uma bala.

Viajar é sempre um exercício de paciência. Mais tarde eu falo sobre o apoio de braço.

Roteiro perfeito

Mar 12

Durante o período de férias-desemprego-sabático de janeiro e fevereiro de 2010, eu pude ampliar os meus conhecimentos televisivos. Essa nova experiência da minha vida (a de coçar por mais de dois dias) não me levou para drogas pesadas, como o Big Bosta, já citado anteriormente, mas me apresentou a um imenso mundo novo de “mais do mesmo” da televisão – no meu caso, mais precisamente os programas policiais.

NCIS, CSI, Criminal Minds e seus derivados Las Vegas, Miami, New York, etc etc etc. Nada mais são do que a mesma coisa com personagens diferentes. Aliás, existe sim uma diferença: cada um desses policiais americanos são chamados em um caso de homicídio diferente, por exemplo, o CSI é chamado para avaliar o local do crime; os Criminal Minds quando se trata se serial killers; o NCIS no caso de envolver algum membro da marinha americana. Até agora, não me lembro de um caso de assassino em série atacando um marine em Nova York dentro da jurisdição do CSI, mas com certeza seria um ótimo episódio, gastar-se-ia (ha!) horrores em cachê e seria transmitido em três horários diferentes.

Bobeiras à parte – ou não. Agora eu já estou especialista em roteiros cinematográficos também, afinal, se não é para mudar em time que está ganhando, porque não colocar todos os times em um jogo só?:

Fulano é um policial novato, que teve o pai morto em um confronto com traficantes no Bronx. Ele consegue uma bolsa universitária jogando futebol americano, se forma e entra para o FBI, onde é alocado para trabalhar junto com um policial durão de 50 anos de idade, Siclano, que perdeu a esposa e o filho pequeno em um desastre do qual ele não comenta (pelo menos até algum momento choroso do filme). Eles não se dão bem (mas fiquem tranqüilos, até o final eles serão BFFs). Quando um objeto não identificado ameaça chocar com a terra, Siclano é designado para evitar uma catástrofe mundial fazendo com que uma bolinha de tênis atinja o tal Ovni com a ajuda de um astronauta aposentado, enquanto Fulano deve treinar um labrador a jogar futebol americano e salvar a sua antiga equipe da faculdade a ganhar contra o Indianapolis Colts (o cachorro ganha aos 45 do segundo tempo). Quando a amante de Fulano morre assassinada, o CSI é chamado para investigar a cena do crime e descobre a participação de vampiros (simplesmente porque eles estão super na moda, e não existe mais filme de sucesso sem vampiros). Fulano se rebela, pega um carro, dirige a 20km/h a mais do que qualquer carro comercial conseguiria correr (só para dar aquele impacto) e chega até o quartel general dos vampiros, que por acaso fica no Iraque, porque eles por acaso são terroristas barbudos. Algumas cenas se passam em árabe (para encher lingüiça), uma história da guerra do Iraque (bem superficial) é narrada por uma voz misteriosa, uma AK-47 mata todos eles, a mulher é resgatada e corta para uma cena no aeroporto (porque o filme está acabando e as referências toscas também). Mulher salva, planeta salvo, só resta cortar para o labrador, que faz o touchdown aos 45 do segundo tempo e lembra (em imagens meio fog) do seu pai, Marley.

Terrível essa, nem eu vou ler de novo…